Infelizmente tenho que relatar este fato. O Hospital Santo Inácio está fechando as suas portas!!!!!
Eu sei, eu sei... Isso já era previsto desde os idos de 1990, mas esperava que após a intervenção da Faculdade Estácio FMJ em 2000 (na época, apenas FMJ) a situação fosse melhorar. Mas a derrocada veio agora...
O Hospital fica localizado em um terreno enorme (mesmo!!) em uma área nobre do Município de Juazeiro do Norte-CE. Até por volta do ano 2000 vinha em uma decadência cada vez mais evidente. Na época, atendia pacientes da rede pública de saúde (em menor quantidade), privada e planos de saúde (que literalmente mantinham o serviço). A estrutura física era deplorável, difícil de acreditar que alguém pudesse buscar sua saúde ali. Lembro que havia muito mato; o laboratório ficava num casebre nos fundos do terreno, abafado e praticamente sem iluminação; havia duas enfermarias, uma feminina e uma masculina, com pacientes cirúrgicos e clínicos misturados; o centro cirúrgico... Nossa! Eram duas salas apertadas com equipamentos totalmente defasados; a UTI tinha uns quatro ou seis leitos, não lembro direito, mas lembro que tinha um ninho de pombos na janela e no condicionador de ar.
Aí veio a Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte e reformulou o hospital inteiro!!!!!!!!Tudo novo!!!!! Fez um pavilhão só para pacientes em tratamento clínico, outro só para os pacientes cirúrgicos, reformulou um pavilhão já existente para uma sala de reuniões e o laboratório, no local onde já funcionava o serviço de oftalmologia, que era uma das duas coisas modernas que já existia lá (a outra era o setor de hemodiálise). Fez um centro cirúrgico modelo, com 4 salas, e uma UTI modelo com capacidade para 10 leitos. Reformulou uma enfermaria para abrigar só salas de ambulatório e a outra enfermaria tornou-se um espaço só para tratamento das Doenças Infecto-contagiosas, em especial portadores do HIV/AIDS (bom, pelo menos, essa era a intenção). Houve a contratação de novos profissionais, a maioria dos próprios professores da FMJ que, com o auxílio dos seus aprendizes, foram pra lá com a boa vontade de melhorar aquela situação, e melhoraram. A Casa de Saúde Santo Inácio virou Hospital Escola Santo Inácio (HESI). Mas muita coisa esbarrava num ponto crucial: o Hospital pertence a uma tal Sociedade Médico Cirúrgica, que tem, por alto, uns 10 sócios.
Boa parte dos investimentos que a FMJ deixava para o hospital (entenda-se dinheiro) simplesmente se perdia no meio do caminho (não sei exatamente em que ponto do caminho FMJ >> Sociedade >> HESI isso acontecia, mas com certeza acontecia). Lembro que por muitas vezes a bolsa dos médicos residentes, que vem do MEC, atrasava porque a Sociedade não repassava... Aí também era pedir demais que a FMJ continuasse com o mesmo empenho. E começou a desandar, de novo. Se antes chegou a ter 26 cirurgias de pequeno e médio porte num dia só, agora havia suspensão das cirurgias eletivas. Suspendia-se a entrada de pacientes para internamento, suspendia-se o ambulatório. Tinha-se que praticamente implorar ao diretor administrativo do hospital pra poder usar determinadas medicações e realizar determinados exames. E, por falar em exames, passavam-se meses pra consertar os equipamentos quebrados.
E, quando a situação estava novamente periclitante (legal essa palavra), veio a intervenção da Prefeitura, ou seja, por determinado período de tempo a Prefeitura de Juazeiro do Norte iria administrar tudo referente ao HESI, de medicamentos a pessoal, sem passar pelo veto dos sócios. Inicialmente a intervenção duraria um ano, mas foi prorrogada duas vezes por 6 meses. O prazo final da última intervenção seria dezembro/2011. Seria, porque V. Exa. o prefeito Dr. Santana baixou um decreto que suspendeu a intervenção no fina de setembro, i. e., 3 meses antes do término previsto. E a justificativa foram os gastos muito elevados do hospital. Segundo a prefeitura, esse custo praticamente dobrou desde o início da intervenção. Pra terminar de lascar, a Sociedade alegou não ter condições de arcar com as despesas para manter o HESI em funcionamento.
Alguém pode dizer - Mas não tem problema, afina o Hospital Regional do Cariri (HRC) já foi inaugurado e está em pleno funcionamento. É, realmente não haveria nada com que se preocupar, mas o HRC foi planejado para atender os casos mais graves, aqueles casos que até pouco tempo iriam pra Fortaleza ou Recife e não para atender toda a demanda de atendimento primário, secundário e terciário do município de Juazeiro e daqueles outros municípios para os quais é referência. Entenda melhor, o HRC não vai receber todos os pacientes. O HRC também não recebeu os alunos que tinham estágio (entenda-se internato e residência médica) no HESI. Soube que algumas turmas foram enviadas ao Hospital São Vicente, em Barbalha (alguma coisa boa nessa história toda) e para o Hospital de Brejo Santo, a quase 80km de distância.
E a saúde de Juazeiro agora ficou assim: Postos de Saúde com profissionais insatisfeitos com as condições de trabalho ruins e cujos salários são insuficientes e atrasam, e sobrecarregados; centro de especialidades médicas (mais conhecido como Sandu, onde são realizadas consultas marcadas) com atendimento confuso, com estrutura física razoável e superlotado; centro de atendimento de emergência (mais conhecido com Stephânia ou Tasso Jereissati) com estrutura física precária, pessoal limitado, sem leitos para internamento e sem um hospital de referência para encaminhar os pacientes menos graves, e superlotado; Policlínica, um outro hospital no centro da cidade, já não andava bem das pernas e foi vendida recentemente; HESI fechado. Os dois últimos pacientes que estavam internados na UTI do HESI foram transferidos para uma clínica particular na última sexta-feira.
Que pena!!!! Apesar de todas as condições de ter um sistema de saúde de ponta, Juazeiro do Norte, no ano do centenário, vê sua Saúde em coma. É o tal "Centenário sem ter nada"!!!!!!!! (E ainda se gabam por terem ajeitado umas duas praças, uns cinco esgotos que estavam entupidos e terem colocado uma enorme bandeira do Município na entrada da cidade)
P.S.: Agora me lembrei da música de Fábio Carneirinho, acho que cai bem numa hora dessas - "Meu Padim, oh! Meu Padim, o senhor que tá aí bem 'pertim' dê mais um recado por mim. Esse é o pedido de um matuto que todo dia 20 veste seu luto, que vai pro Socorro rezar, Meu Padim, pro senhor interceder por mim". É bom todo mundo rezar pra não adoecer.

